O que está acontecendo com a Base Furnas RJ?

Posted: July 14, 2016 in Uncategorized

Em qualquer encontro entre sindicatos no Brasil é comum ouvir dos sindicalistas de fora do Rio a pergunta: “o que está acontecendo com a Base Furnas RJ?”. Desde 2015, são algumas recusas em seguir o indicativo do Coletivo Nacional dos Eletricitários. Não existe uma causa lógica e específica. O momento peculiar de Furnas RJ está em alguns fatores que serão listados a seguir.

 

Com a entrada de Furnas no Programa Nacional de Desestatização no fim da década de 90, a empresa ficou muitos anos sem realizar um concurso público. Nos concursos de 2002, 2005 e 2009, foi recorrente o desgaste de vários trabalhadores que ingressaram na empresa por via judicial. Pelo tempo sem Concurso, a empresa ficou com um vácuo etário: algumas pessoas com mais de 20 anos de empresa e outras com pouquíssimo tempo de casa. Trata-se de um choque de cultura desafiador até os dias de hoje e há quem tente usar isso para “capitalizar a discórdia”. As pessoas com menos tempo de casa, naturalmente tem salários bem menores, o que já promoveria uma insatisfação natural.

 

A respeito dos salários, o maior problema apontado por muitos trabalhadores de Furnas é visto na grama do vizinho, no tratamento diferenciado e na inépcia do sindicato majoritário em implantar benefícios já comuns até em outras empresas da mesma base. É sabido que quando foi implantado o novo Plano de Carreira do Grupo Eletrobrás no final da década passada, algumas empresas fizeram grandes ajustes de curva com o passar do tempo. A Eletronorte, famosa pelos efeitos da “CURVA TAMBURELLO” nos anos 90, ajustou a curva salarial já na migração do Plano de Carreiras. Hoje, não há nenhum profissional de nível superior na Eletronorte abaixo do NÍVEL 3(de complexidade). Entre 2012 e 2013, a Eletrobras Holding por forte iniciativa de empregados com pouco tempo de casa, instituiu o Plano de Aceleração de Carreira (PAC), em 2014 seguiu com o PAC2. O PAC foi uma espécie de Ajuste de Curva que destinava uma parte da verba de progressão para correções, principalmente dos profissionais bem avaliados que estavam nos NÍVEIS 1 e 2 de complexidade. Hoje, a Eletrobras Holding não tem profissionais de nível superior no NÍVEL 1. Logo em seguida (2014), a Eletronuclear adotou um modelou bem parecido que batizou de PACAR. Em 2015 foi a vez da CHESF fazer seu AJUSTE DE CURVA. Com todos esses incrementos de aceleração de carreira com o intuito de minimizar o “turnover” e reter Capital Intelectual na empresa, os trabalhadores de Furnas se questionam: “por que algo assim não acontece na nossa empresa?”; “por que somos sempre os últimos a realizar SGD/Mérito entre as empresas de Geração e Transmissão?” 

 

Some-se ao exposto no parágrafo anterior as diferenças que Furnas teve ao longo dos anos com assembleias dos sindicatos. Era muito comum se trazer as deliberações mais importantes para o Centro do Rio onde outras empresas poderiam comparecer em maior número e Furnas era sempre suplantada e anulada nas deliberações da extinta Base Rio (Furnas, Cepel, Eletronuclear e Holding). Isso só mudou em junho 2015 em Assembleia histórica no Colégio 1º de Maio, em que os trabalhadores votaram contra o encaminhamento do CNE que aprovaria uma polêmica proposta de PLR. Proposta essa, que segundo alguns informavam, retirariam os fatores operacionais da fórmula a partir de 2018, prejudicando o esforço, as conquistas e os ganhos de PLR dos trabalhadores. Naquele momento ocorreu uma ruptura da Base por obra do próprio sindicato, através de ‘abaixo-assinados’ e novas assembleias por cada empresa. Furnas seguiu sozinha tendo passado por um episódio em que poucos sindicalistas comparecerem ao piquete e cerca de 30 trabalhadores formaram os comitês de convencimento até que a PLR chegasse ao TST. Aquele momento foi o ápice do desgaste entre trabalhadores e sindicatos. No TST, o juiz retirou a polêmica clausula de 2018 e acordo de PLR passou a ter duração de 4 anos, sempre com uma parcela julgando os fatores operacionais. Conquista positiva advinda do esforço dos trabalhadores.

 

Aquela experiência fez com que diversos trabalhadores que mal se conheciam, estreitassem suas relações e encontrassem em todos os dilemas citados, um ponto de convergência. Nesse período, as novas lideranças conversavam muito com trabalhadores com mais tempo de Furnas e percebiam pontos de insatisfação no modelo de representação comum a todos, mesmo assim não decidiram se opor a sindicatos ou federações, mas começaram a analisar em conjunto os problemas que passaram em outros tempos para tomarem suas próprias inciativas quando necessário, já que tinham um entendimento de que há no Coletivo Nacional uma forte influência das empresas do Norte.

 

Uma das coisas que buscam minimizar é o que chamam de “banalização da greve”. Greves coladas com final de semana que contam os dias de descanso remunerado e greves por tempo indeterminado, geram uma bola de neve de dias não trabalhados que são sempre usadas como barganha na negociação. Nesse caso as paralisações que deveriam favorecer ao empregado, jogam contra ele. Além disso, nas greves por tempo indeterminado, os trabalhadores chegam a um ponto de saturação que saem mais desgastados e enfraquecidos do que entraram. Embora percebam que todas as formas são ferramentas que algumas vezes são necessárias e que também é preciso observar as diferenças na realidade de cada local, como por exemplo a diferença na forma de trabalho das centrais, nas regionais ou o sistema de turnos.

Outro aspecto que é muito criticado pelos empregados com mais tempo de casa, é o “cessar greve” para ouvir uma nova proposta da empresa. Por vezes, historicamente esse voto de confiança foi quebrado, sem nenhuma proposta convincente ou somente para anular o movimento de greve. A inoperância da Associação dos Empregados de Furnas e sua subserviência ao sindicato do Rio, também incomoda demais os trabalhadores. Além de conquistas deixadas de lado, que para tanto os próprios trabalhadores efetivos precisam lutar para que seja realizado, e para que associação e sindicato tomem uma atitude, como é o caso das diárias de viagem, defasadas e há 5 anos sem reajuste e o cartão farmácia, que já é contemplado aos colaboradores terceirizados.

 

Por todo o exposto, é razoável entender que a massa de trabalhadores Nível 1 de Furnas, valoriza muito as campanhas de salário e PLR. Para esses trabalhadores, trata-se de uma diferença relevante. Isto e o desgaste com sindicatos e federações, são definitivamente os fatores preponderantes para esta quebra de paradigma. Por muito tempo, as entidades sindicais detiveram o monopólio da informação e hoje com a emergências das redes sociais, isto acabou. É comum ver um sindicalista recebendo informações da Base durante a assembleia.

 

No momento em que as empresas do grupo Eletrobras buscarem isonomia nestes ajustes de curva e benefícios e que os sindicatos se debruçarem a refletir que muita coisa mudou, a situação em Furnas RJ tende a mudar. Uma vez que não se trata de um movimento revolucionário, uma rebeldia sem causa. São trabalhadores comprometidos com o futuro e a perenidade da joia da coroa do setor elétrico. O que é praticamente unânime entre todos é que os propósitos de Furnas são específicos e a consciência pela retomada da unidade em condições de igualdade com outras Bases é fundamental. Mas o modelo precisa revisto. Da forma que as coisas são tratadas hoje, a tendência é que a coisa pouco evolua.

 

Furnas questão

 

Fonte: Texto colaborativo recebido por e-mail, depoimento de trabalhadores de Furnas.

=>   furnasdiario@gmail.com

Comments
  1. Na Eletrosul, também temos esta diferença entre tempos de casa, devido a muitos anos sem concurso, praticamente de 1989 até 2002. Porém aqui foi aplicado até 5 steps na migração para o PCR, tivemos o PAC (aqui chamado de PGC) que deixou de fora apenas 28 funcionários nível 1 e 28 nível 2, além disto, desde a implantação do PCR, tivemos distribuição de mérito todos os anos, com exceção de 2012. Ainda sim perdemos muitos funcionários promissores para outras empresas, inclusive empresas privadas. Tais práticas deveriam ser uniformes para todas as empresas da holding.

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